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Por que o governo do liberal Milei decidiu intervir novamente no câmbio da Argentina

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Por Micaela Santos/G1
Publicada em 04/09/2025 às 11h33

O governo de Javier Milei anunciou, na última terça-feira (2), novas medidas de intervenção no mercado de câmbio argentino. A ação tem como objetivo garantir a oferta de dólares e reduzir a instabilidade do peso, por meio de operações de compra e venda realizadas pelo Tesouro Nacional.

A decisão surpreendeu o mercado por vir de um governo de agenda ultraliberal. Em abril, por exemplo, o próprio governo havia comemorado o fim do “cepo” — sistema que restringia a compra de dólares pelos argentinos para tentar controlar o valor do peso.

Apesar de ser mais branda, a nova medida preocupa economistas ouvidos pelo g1, que alertam para novos riscos à confiança dos investidores. Muitos haviam retornado ao país atraídos pelas políticas de Milei, mas agora veem o governo recorrer novamente ao Tesouro para tentar conter a queda do peso em meio a uma crise política.

A seguir, os principais fatores que motivaram a decisão do presidente argentino e a forma como o mercado reagiu à mudança de estratégia.

A agenda ultraliberal de Milei

Eleito presidente da Argentina em 2023, Javier Milei assumiu em meio à pior crise econômica do país em décadas, marcada por inflação recorde, aumento da pobreza, dívida externa bilionária e falta de dólares em reserva.

Economista de formação e crítico da chamada “casta política”, Milei defende uma versão radical do liberalismo econômico, com forte redução do papel do Estado.

Entre as propostas que reforçam essa imagem estão:

Defesa da dolarização: chegou a propor a substituição do peso pelo dólar como moeda oficial, extinguindo a política monetária nacional;

Fechamento do Banco Central: defende a extinção da instituição, alegando que ela seria responsável pela inflação e pela instabilidade recorrente da moeda;

Cortes profundos no Estado: propõe privatizar estatais, reduzir ministérios e enxugar os gastos públicos ao mínimo;

Abertura comercial ampla: sugere eliminar tarifas e barreiras regulatórias, permitindo concorrência plena com produtos estrangeiros;

Visão radical sobre direitos trabalhistas e subsídios: questiona normas do mercado de trabalho, sindicatos e propõe acabar com subsídios a setores considerados “ineficientes”.

Por que o governo Milei voltou a intervir no câmbio?

1. Queda do peso argentino e risco de inflação

Embora tenha conseguido reduzir a inflação que ultrapassava 200% ao ano, por meio de um plano severo de cortes nos gastos públicos, o governo Milei ainda não conseguiu gerar plena confiança na economia nem atrair um bom volume de investimentos estrangeiros.

O presidente ainda enfrenta dificuldades para acumular reservas em dólar, essenciais para garantir o pagamento das dívidas argentinas e reduzir a vulnerabilidade do peso. Em última instância, essas reservas facilitariam até a prometida transição para a dolarização da economia.

Na tentativa de recuperar a confiança dos investidores, Milei tem dado passos calculados.

Quando extinguiu o “cepo”, em abril, o câmbio passou a flutuar de forma mais livre. Por um lado, a medida agradou ao mercado por seu viés liberal. Por outro, enfraqueceu ainda mais o peso, já que a demanda por dólares é maior.

Em outras palavras: enquanto os argentinos buscam proteger suas economias comprando dólares, o governo tenta evitar que a desvalorização do peso volte a pressionar os preços.

Apesar de algum sucesso inicial, as reservas voltaram a cair em 2025, e chegaram a cerca de US$ 7 bilhões negativos após o fim do “cepo”. Começa um círculo vicioso: com pouco dinheiro em caixa, o governo tem menor capacidade de intervir, e o peso tende a se desvalorizar ainda mais.