“Do rio a gente pesca, a gente toma banho, pega água de lá pra beber, pra fazer comida: tudo é o Rio Jamari”, explica.
Essa mesma rede de rios que garante a sobrevivência humana também abriga uma das maiores biodiversidades aquáticas da Amazônia — espécies exclusivas, com características únicas, muitas delas ameaçadas ou vulneráveis.
Apesar de ainda possuir uma população relativamente expressiva, o boto enfrenta ameaças como a caça ilegal, a poluição dos rios e os ruídos provocados pelas embarcações, que comprometem sua saúde e colocam em risco sua sobrevivência.
Essas ameaças à fauna aquática se somam a um problema ainda maior: a escassez de água. Quando os rios secam, não é apenas a vida animal que sofre — comunidades inteiras enfrentam uma realidade drasticamente alterada.
Principais rios de Rondônia
O Rio Madeira é o principal rio de Rondônia e um dos mais importantes da Amazônia, com mais de 3 mil km de extensão e uma vazão média que o coloca entre os maiores do mundo em volume de água. Ele é essencial para a economia do estado, funcionando como hidrovia estratégica para o transporte de grãos e fonte de sustento para dezenas de comunidades ribeirinhas.
Todos os rios de Rondônia acabam desaguando no Madeira, formando uma bacia hidrográfica vital para o estado. São eles:
- Rio Guaporé: Marca a fronteira com a Bolívia e é essencial para a pesca artesanal e o turismo ecológico.
- Rio Mamoré: Também fronteiriço, tem papel histórico no transporte fluvial e na ligação com a região amazônica boliviana.
- Rio Machado: Cruza áreas agrícolas e urbanas, sendo importante para irrigação e abastecimento.
Pôr do sol no rio Madeira — Foto: Armando Júnior
🌧️ Seca e cheia: extremos que castigam
“Quando não é a cheia, é a seca.” A frase de Simone Alves mostra que os ribeirinhos sentem na pele o que os especialistas já perceberam: as mudanças climáticas têm intensificado os eventos extremos.
“Os rios têm tido cheias mais intensas e secas mais severas, dificultando o transporte e o abastecimento de água da população, principalmente a ribeirinha”, explica Daniely da Cunha, coordenadora de Recursos Hídricos da Secretaria de Estado do Desenvolvimento Ambiental.
O professor Michel Watanabe, geógrafo e pesquisador, destaca que o equilíbrio dos rios amazônicos depende do chamado pulso de inundação — o ciclo natural de cheias e vazantes que fertiliza o solo, regula a reprodução dos peixes e sustenta a biodiversidade da região. Quando esse pulso se desequilibra e se torna extremo, o sistema entra em colapso.
“Secas severas causam mortandade de peixes por falta de oxigênio e levam a floresta a um estado vulnerável, a incêndios catastróficos. Cheias prolongadas encurtam o período de disponibilidade de alimentos para a fauna terrestre, erodem margens e desalojam comunidades inteiras. Torna-se um sistema descompassado, com variações bastante sérias”, compara.
Segundo a etnoclimatologista Alba Rodrigues, o desmatamento é um fator que influencia diretamente nas mudanças no regime de chuvas da região Norte:
“A floresta, além de ser geradora de umidade e micropartículas de água, que formam as nuvens para precipitação em chuvas, também tem o papel de reguladora do sistema e regime das águas”, aponta.
Quando a seca chega, a realidade do estado muda drasticamente. A falta de água afeta a produção agrícola, compromete a alimentação e dificulta até os cuidados básicos com higiene. Esse é o cenário atual: na quinta-feira (4), o rio chegou a 3,22 metros. Essa cota está abaixo da média, mas ainda bem distante da mínima histórica para o período, que é 1,33 metro.
“Muitos aqui tão sem água pra tomar banho, pra fazer comida. A gente fica dependendo de um e de outro pra poder conseguir água, é muito difícil”, lamenta Simone.
Para comunidades como São Carlos, o rio é também o principal meio de locomoção. Durante a seca, esse deslocamento se torna quase impossível, isolando famílias, dificultando o acesso a serviços básicos e comprometendo a economia local. A mobilidade ribeirinha depende da navegabilidade dos rios — e quando ela falha, falha também o acesso à saúde, educação e comércio.
⚙️ Economia movida a água
Os rios de Rondônia são motores da economia estadual. Segundo Daniely Sant’Anna, eles contribuem de forma decisiva:
- Energia: Potencial para grandes hidrelétricas e pequenas centrais.
- Transporte: A hidrovia do Madeira é essencial para o escoamento de grãos.
- Produção: Agricultura, pecuária, pesca e piscicultura dependem dos corpos hídricos.
- Abastecimento e indústria: Garantem água para consumo humano e processos industriais.
- Turismo: Atraem visitantes e movimentam a economia local.
Durante a seca de 2024, o nível dos rios da região Norte caiu drasticamente, afetando a geração de energia nas hidrelétricas instaladas no Rio Madeira. A crise hídrica levou ao acionamento de termelétricas e ao aumento na conta de luz dos brasileiros.
- 65 Cristos Redentores, considerando que a estátua tem 1.145 toneladas; ou
- Mais de sete Torres Eiffel, que pesa cerca de 10.100 toneladas.
Os rios de Rondônia não são apenas caminhos de água — são caminhos de vida. Preservá-los é garantir o sustento de milhares de famílias, a continuidade de culturas ancestrais e o equilíbrio de um dos ecossistemas mais ricos do planeta.
Comboio de 30 barcaças navega o rio Madeira, em Porto Velho — Foto: Reprodução Transportes Bertolini
*Estagiária sob supervisão de Jaíne Quele Cruz










